A pandemia ainda não acabou, e agora? Entrevista com a profª. dra. Melissa Markoski explica as principais questões sobre esta etapa da pandemia

O fundo da imagem é amarelo, à esquerda há uma foto da professora Melissa, uma mulher branca, de cabelos ruivos. O texto na imagem é: "Entrevista com a profª. da UFCSPA e Dra. em Biologia Celular Molecular Melissa Markoski. A pandemia ainda não acabou. E agora?"

Apesar da taxa de pessoas vacinadas no Brasil ter aumentado e várias modalidades de eventos presenciais serem liberadas, a pandemia ainda não teve um fim. Nesse cenário, muitas dúvidas podem surgir sobre a COVID-19, as vacinas e as medidas de segurança mais adequadas para este momento. Para tentar explicar as principais questões sobre esta etapa da pandemia, conversamos com a professora de Biossegurança da UFCSPA e doutora em Biologia Celular e Molecular Melissa Markoski. Desde 2020, ela participa da Rede Análise COVID-19 e divulga informações científicas sobre o coronavírus em suas redes sociais. Confira a entrevista* a seguir.

*A entrevista foi realizada no final de outubro.

Nessa etapa da pandemia, em que uma grande parcela da população está vacinada – como é o caso de Porto Alegre – quais atividades já são consideradas relativamente seguras? 

Ainda que nós tenhamos uma taxa da população adulta completamente imunizada acima dos 70%* – esse número é realmente um percentual muito bom – a gente ainda tem que ter alguns cuidados com relação à pandemia. Em primeiro lugar porque mesmo as pessoas vacinadas, ainda que isso seja feito numa taxa muito menor, transmitem o vírus, e a gente tem uma proporção também de crianças abaixo dos 12 anos não vacinadas. Então o que a gente pode considerar como atividades mais seguras? Aquelas atividades realizadas ao ar livre, mas ainda com as pessoas mantendo máscara. Porque quando você tem, por exemplo, num parque, numa praça, muitas pessoas juntas sem máscara, você está propiciando um ambiente de transmissão. Se tiver ali uma pessoa contaminada, essa pessoa pode passar para as outras. Então, mesmo nas atividades ao ar livre, você deve preferencialmente manter máscara e não fazer aglomerações. E se esses locais são locais ventilados, então um risco de infecção com SARS-CoV-2 é realmente muito baixo.

*Atualmente, a taxa de pessoas com esquema vacinal completo em Porto Alegre é de 87,8% (dados de 24/11/2021). A entrevista foi realizada em 26/10/2021.

Como reduzir riscos em encontros com pessoas de residências diferentes? Quais atividades ainda devem ser evitadas?

Quando nós temos atividades com pessoas de residências diferentes, por exemplo, você vai fazer um jantar para um casal de amigos, o importante é que as pessoas estejam vacinadas, que você mantenha distanciamento e que o maior tempo possível que você ainda utilize máscara. 

Se você puder preconizar que as atividades sejam ao ar livre, é mais seguro. Que atividades devem ser evitadas? Aquelas onde você vai ter aglomeração em ambientes internos com ventilação ruim. Ou se você vai receber pessoas que você não sabe como está o esquema vacinal, porque aí é um risco, e é um risco que não é legal as pessoas correrem nesse momento.

Com a retomada total de aulas presenciais no ensino fundamental e médio e com a maioria dos empregos deixando o formato remoto, ao que devemos nos atentar nesses ambientes para garantir maior biossegurança?

Esses ambientes, escritórios, escolas, onde a circulação do ar é feita através de ventilação natural, geralmente janelas ou até com ventilador, com a ventilação mecânica auxiliando na formação dos fluxos de ar, você precisa reforçar os cuidados de uso de máscara e o distanciamento. Em terceiro lugar eu colocaria também a questão da higienização de superfícies, principalmente os locais onde as pessoas vão tirar máscara para se alimentar, nos refeitórios, ou se, por exemplo, no escritório as pessoas forem tomar café, fazerem isso alternadamente, não todas ao mesmo tempo, porque se uma tirar a máscara enquanto as outras estão utilizando, você tem mais segurança. Então são os cuidados que precisa se ter nesses ambientes fechados para se evitar a transmissão.

Já se sabe que a transmissão por superfícies, por exemplo, é extremamente baixa. O que é importante destacar nesse momento da pandemia sobre medidas de segurança? 

Como professora de biossegurança, sempre vou defender a questão da higienização: você higienizar e cuidar onde toca, dar uma atenção boa para higienização de mãos e também para a higienização de superfícies que estão em áreas mais suscetíveis a contaminação por gotículas, como, por exemplo, mesas em restaurantes. Nesses locais, é importante que as limpezas de superfícies continuem ocorrendo para prevenir que uma pessoa toque neste lugar e traga contaminação para as vias de entrada. 

Ainda, o risco é muito baixo, mas a gente tem que pensar que a gente não tem só a COVID, a gente tem diferentes doenças de origem bacteriana, de origem viral, que são transmissíveis através dos fômites, que são as superfícies. Então, é importante continuar mantendo higienização de superfícies principalmente em áreas comuns, áreas que você tem muita circulação de pessoas. 

Quando poderemos afirmar, efetivamente, que a pandemia acabou? Qual o parâmetro de saúde internacional para isso?

Não é fácil a gente saber o que seria um parâmetro apropriado. Muita gente fala, por exemplo, sobre a taxa R. A taxa R do Brasil, segundo o Imperial College, que publicou isso hoje*, está em 0,6. Isso é um bom valor porque ela deve ser menor do que 1, isso significa que você tem uma taxa de transmissão reduzida, que a doença está chegando numa situação de controle. Ao mesmo tempo, a gente tem que olhar também para os dados de hospitalização e o que está aumentando a hospitalização nas cidades. Como está o esquema de testagem, as pessoas continuam testando se elas têm sintomas da doença? Porque muitas pessoas pensam assim: “Eu estou aqui com sintomas de gripe, estou vacinado, eu nem vou testar.” Isso acaba sendo um problema porque isso vai mascarando os números, a gente pensa que os números estão super baixos e na verdade podem não estar tão baixos assim. Então, a gente precisa observar o que está acontecendo, tanto no nosso país e na nossa cidade como nos nossos entornos, os outros países, países vizinhos. 

*Em 26/10/2021, a taxa R do Brasil era de 0,68, segundo o Imperial College. No dia 02/11, a taxa voltou a subir, chegando a 1,04.  A divulgação de 09/11 apontou que a taxa estava em 0,79.

Alguns governos estaduais têm mencionado a liberação do uso de máscaras. Mesmo que essa medida seja tomada, até que momento as máscaras serão necessárias? Quando será realmente seguro parar de usá-las? Qual o melhor tipo de máscaras para esse momento da pandemia? 

A máscara continua sendo um item muito importante, porque a proporção de população adulta vacinada ainda não é um número tão desejável. A gente tem diferentes tipos de vacinas: algumas pessoas tomaram a primeira dose e outras tomaram a segunda dose, muitas crianças não tomaram a vacina e essas pessoas todas podem transmitir, vacinadas ou não vacinadas. Claro que os vacinados transmitem menos, porque quando o vírus chega no seu organismo, ele é mais rapidamente combatido pelo sistema imune, em função da imunização pela vacina. 

Agora, é importante considerar o uso de máscara ainda por um tempo, em que a gente tenha um aumento dessas taxas [de vacinação] no Brasil, no Estado do Rio Grande do Sul, que a gente não tenha essas ameaças de variantes alcançando as cidades, alcançando os países, como a gente está vendo em outros locais. 

Então, tem essa discussão sobre a liberação [da máscara] em locais abertos, mas vamos lembrar o seguinte: isso é um convite à aglomeração. Porque as pessoas fazem festas, as pessoas vão para a beira da praia, e essas pessoas todas vão entrar em contato, é difícil manter o distanciamento. Nesse sentido, a máscara ainda continua sendo uma barreira importante, por isso que a gente precisa manter por mais tempo. Quando vai ser seguro [parar de utilizar máscara]? Quando a gente olhar os números da pandemia e ver que a nossa taxa de mortalidade tá muito, muito mais baixa. A gente precisa reduzir pelo menos mais umas quatro vezes, a taxa de mortalidade com relação à síndrome respiratória aguda grave tem que ser quatro vezes menor. 

Se a gente olhar os dados de influenza, da H1N1, são 8, 10 mortes por dia, considerando por exemplo o ano de 2018. Então se você tem 300 e tantas mortes no Brasil [por COVID-19], é um número ainda altíssimo de mortalidade por uma doença viral respiratória. Então, a gente precisa reduzir. A gente tem que chegar nesses patamares como esses países que fizeram as medidas mais restritivas e que tem pouquíssimos casos. 

Que máscara utilizar? A melhor máscara possível. Então, se a pessoa vai para uma área de alto risco, se tem muitas pessoas trabalhando naquele local, ou você vai para escola, você preconiza utilizar a melhor máscara que você puder, preferencialmente a PFF2. Agora se você não tem como, você pode optar pela máscara cirúrgica. Bom, se não tem como ficar comprando as máscaras, você tem máscaras de tecido que você pode reutilizar, fazer higienização adequadamente, você pode utilizar também, mas o mais importante é que a máscara esteja bem ajustada ao rosto. Ela não pode ficar com folga, principalmente na região do nariz, ela não pode ficar para cima e para baixo, vir para o queixo, depois voltar para o rosto, porque com isso a gente contamina a máscara. Então ela precisa sempre estar muito ajustada ao rosto. Isso é primordial para que a máscara faça a sua função de barreira.

Com o início da aplicação da dose de reforço, surgem dúvidas sobre a vacinação: há evidência de que ela será realizada anualmente, como a vacina da H1N1? Há previsões para a vacinação das crianças?

Agora, lá nos Estados Unidos, eles estão começando a vacinar crianças acima dos cinco anos. Então, isso é um indício importante de que daqui a pouco, talvez o Brasil já possa vacinar a população das crianças dos 5 aos 12 anos, porque como começou no mundo, nos Estados Unidos, na Inglaterra, a vacinação das crianças de 12 anos e em seguida se começou aqui também, é muito provável que a Anvisa faça essa liberação, principalmente pelo imunizante da Pfizer. Então isso pode acontecer, mas ao mesmo tempo a gente não sabe ainda como é que vai ser. 

A gente não sabe se a vacina, nós vamos ter que tomar todo ano, eu acho que os cientistas vão se atentar muito para a questão das variantes. De repente, sim, assim como o H1N1 que utiliza as cepas que circularam na população naquele ano para fazer a vacina para o ano seguinte. Talvez a COVID siga algum princípio desse tipo, mas a gente ainda não tem esses resultados. O que a gente sabe é que o nível de anticorpos, ele reduz entre 6 e 10, 12 meses. Então, eu acho que é o que vai ser avaliado agora, nesses próximos meses, com os resultados que nós estamos tendo dessa população aí totalmente imunizada no mundo.

Como nós, enquanto cidadãos, podemos evitar novas variantes e picos de contaminação?

Bom, os cidadãos podem evitar as novas variantes diminuindo a transmissão. Então cada pessoa que se cuida, cada pessoa que utiliza máscara corretamente, cada pessoa que mantém distanciamento, cada pessoa que não faz aglomeração, ela está contribuindo para evitar a formação de novas variantes. Agora, as pessoas que fazem o contrário disso, se aglomeram e não se cuidam, isso possibilita que a contaminação, que você tenha vírus passando de um organismo para o outro e tentando se adaptar aquele novo organismo, e é aí que surgem as novas variantes. 

Então isso é o que a gente precisa evitar nesse momento, é muito importante, além da vacinação, utilizar as medidas não farmacológicas para que a gente evite uma possível transmissão e a possibilidade do surgimento de novas variantes.

Que canais você recomenda para se informar com informações confiáveis sobre a pandemia?

Eu recomendo os canais de divulgação científicas confiáveis: a Rede Análise COVID-19, o Grupo Infovid, o Observatório da COVID. São todos canais que utilizam as diferentes mídias sociais para divulgar ciência de qualidade, baseados em dados científicos, em dados abertos disponibilizados pela Secretarias de Saúde, então, com analistas de dados competentes para não tirar conclusões errôneas também sobre dados. É muito importante nós sabermos que as pessoas que estão analisando são pessoas que entendem daquilo ali. Alguns canais de jornalismo são super preocupados com a questão de transmitir informações corretas, então, esses canais são canais interessantes para procurar.

 O que evitar? Aquelas notícias que chegam por WhatsApp, meio duvidosas, que a gente não tem muita certeza. Então, se leu alguma notícia que não tem certeza, ir lá dá uma procurada no Google se aqui não é uma fake news. Tem esses canais, por exemplo, o Aos Fatos, que investigam as notícias falsas, então é importante fazer essa checagem. E também nunca compartilhar informações que a gente não tem certeza se aquilo tá certo ou não, mesmo recebendo de fundos confiáveis. O ideal sempre é checar as informações.