Outubro Rosa: Entrevista com a Dra. Daniela Dornelles Rosa explica a importância da prevenção e do diagnóstico

A imagem tem o fundo rosa e mostra um livro aberto. O texto na página esquerda do livro é: “Outubro Rosa - Entenda a importância da prevenção e do diagnóstico do câncer de mama”. Na página direita, há uma fotografia de uma mulher branca, de cabelos loiros e lisos, que sorri. O texto é: “Entrevista - Daniela Dornelles Rosa - PhD em Medicina, Médica Oncologista do Hospital Moinhos de Vento (POA), Presidente do Grupo Brasileiro de Estudos em Câncer de Mama”. A imagem mostra borboletas de cores variadas sobre as páginas.

O câncer de mama é o tipo de câncer que mais atinge as mulheres no Brasil, desconsiderando os tumores de pele não melanoma. Para o ano de 2021, o Instituto Nacional de Câncer estima 66.280 novos casos no país. Neste contexto, as campanhas de Outubro Rosa prestam um importante papel social: disseminar informações pertinentes sobre o câncer de mama, ampliando a conscientização sobre diagnósticos e prevenção. Para encerrar o Outubro Rosa, a UNA-SUS/UFCSPA conversou com a Dra. Daniela Dornelles Rosa, médica oncologista do Hospital Moinhos de Vento em Porto Alegre, presidente do Grupo Brasileiro de Estudos em Câncer de Mama (GBECAM) e professora de pós-graduação na UFCSPA.

O diagnóstico precoce é a medida fundamental para o aumento das chances de cura, caso seja detectado um câncer de mama, e a principal maneira de detectá-lo é o exame de mamografia. O Ministério da Saúde recomenda o rastreamento por meio da realização da mamografia a cada dois anos, para a faixa etária de 50 a 69 anos. A Dra. Daniela destaca que este é um assunto bastante debatido e controverso, uma vez que, nos últimos anos, os diagnósticos em mulheres mais jovens têm sido mais frequentes, e explica que o rastreamento já deve ser considerado para quem tem mais de 40 anos. 

Outra dúvida comum é sobre o autoexame. Antigamente apontado como um passo essencial para o diagnóstico, ele foi substituído pela ideia de autoconhecimento corporal. A observação das mamas deve ser considerada um auxílio para detecção de alterações, mas não é a principal estratégia diagnóstica: “A gente tem que cuidar muito porque algumas mulheres se sentem culpadas porque não faziam autoexame – não tem que se sentir assim. O importante é fazer o rastreamento mamográfico e ir ao ginecologista para fazer os outros exames preventivos, não só de câncer de mama, e naturalmente fazer palpação das mamas pelo médico ginecologista”, afirma a médica oncologista.

Em relação a este autoconhecimento corporal, além da presença de nódulos da mama e na região das axilas, os seguintes sintomas devem ser tidos como sinais de alerta: secreções – especialmente com sangue – que saiam dos mamilos; vermelhidão persistente nas mamas; modificação na consistência da pele, que fica grossa e enrugada, com uma textura parecida à casca de uma laranja; e alterações nos mamilos, como descamação e vermelhidão.

A dra. Daniela Dornelles cita que as estratégias centrais de prevenção e redução do risco do câncer de mama estão relacionadas, principalmente, aos hábitos de vida. Comportamentos que podem ser modificados e que diminuem o risco da doença são: manter uma vida saudável com uma alimentação equilibrada e a realização de exercício físico, e evitar o consumo de álcool. Além disso, ela ressalta: “Dentro da modificação do risco, é muito importante a gente lembrar da avaliação com o geneticista nos casos de história familiar de câncer”. Essa avaliação pode indicar a mutação de genes responsáveis por vários tipos de câncer. No caso de histórico familiar de mutação em genes que aumentam o risco do câncer de mama, um acompanhamento mais próximo por parte dos médicos é indicado mesmo antes dos quarenta anos. 

Vale reforçar que, no Brasil, as políticas do Sistema Único de Saúde garantem acesso amplo aos serviços de diagnóstico e tratamento do câncer de mama. A Lei dos 30 Dias determina que pacientes com suspeita de câncer tenham o diagnóstico no período máximo de um mês; e a Lei dos 60 Dias define que, a partir do momento do diagnóstico, o tratamento se inicie em até dois meses. Na assistência à saúde, estão disponíveis no SUS a cirurgia de retirada da mama, a reconstrução, a quimioterapia, a radioterapia e a maioria dos medicamentos necessários para o tratamento.

Uma questão menos comentada é o câncer de mama em homens cisgênero: a incidência é mais baixa, representando menos de 1% dos casos, e está normalmente associado às mutações genéticas. Pessoas transgênero, em especial mulheres trans que utilizam do hormônio estrogênio, e homens trans, também podem ter câncer de mama, mas se tratam de casos raros. De maneira geral, pessoas que possuem ovários e mamas devem realizar a mamografia na faixa etária indicada, e todos devem estar atentos ao histórico familiar. 

Em meio à pandemia de COVID-19, as preocupações na área oncológica e ginecológica aumentaram com o atraso dos diagnósticos. A Dra. Daniela conta que, com o fechamento de clínicas e hospitais, mesmo após a volta do funcionamento dos serviços, “As pessoas ficaram com muito medo de comparecer nos locais de saúde, de atendimento a saúde, e isso fez com que houvesse um retardo muito importante no rastreamento do câncer de mama.” Os processos de tratamento foram menos impactados, na medida em que se tentou manter todas as cirurgias de urgência e tratamentos oncológicos, mas o atraso nos diagnósticos deve refletir nos dados futuros.. 

Por fim, a Dra. Daniela Dornelles deixa um recado para aqueles que convivem com o câncer de mama: “Não se sinta culpado! Ninguém tem o poder de fazer um câncer de mama. O câncer de mama é multifatorial, ou seja, ele é causado por vários fatores de risco que atuando em conjunto acabam desencadeando a doença.” Segundo ela, ter hábitos saudáveis é importante para reduzir os riscos e complicações em um tratamento, mas não evita totalmente o câncer. Além disso, a médica reforça a necessidade de buscar informações confiáveis sobre o câncer, a partir de profissionais da saúde e ONGs, que atuam em prol da conscientização e ajudam a desmentir boatos e desinformação, que é prejudicial. E adiciona:  “O câncer de mama tem cura nos estágios um, dois e três e ele é manejável e controlável no estágio quatro, que é a doença metastática. Então não percam a esperança, não deixem de se tratar, não busquem soluções mágicas porque elas não existem e busquem ter uma vida boa”.

FONTES: Revista Azmina – Pessoas trans também podem ter câncer de mama, de Caê Vasconcelos; Cartilha do Instituto Nacional do Câncer 2021